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Insônia

Dayvigo e Quviviq: diferenças entre lemborexanto e daridorexanto no tratamento da insônia

Dayvigo e Quviviq são medicamentos prescritos para adultos com insônia. Os dois pertencem à classe dos antagonistas duplos dos receptores de orexina, frequentemente abreviada como DORA, do inglês dual orexin receptor antagonist. O princípio ativo do Dayvigo é o lemborexanto; o do Quviviq é o daridorexanto.

EEquipe Relifarm 25 min de leitura
Dayvigo e Quviviq: diferenças entre lemborexanto e daridorexanto no tratamento da insônia

Dayvigo e Quviviq são medicamentos prescritos para adultos com insônia. Os dois pertencem à classe dos antagonistas duplos dos receptores de orexina, frequentemente abreviada como DORA, do inglês dual orexin receptor antagonist. O princípio ativo do Dayvigo é o lemborexanto; o do Quviviq é o daridorexanto.

A diferença mais evidente entre os dois fármacos é a duração farmacocinética. O lemborexanto tem meia-vida efetiva aproximada de 17 horas na dose de 5 mg e de 19 horas na dose de 10 mg. O daridorexanto tem meia-vida terminal aproximada de 8 horas. Essa diferença pode influenciar a manutenção do sono e a probabilidade de sonolência no período da manhã, mas não permite concluir que um medicamento seja universalmente melhor que o outro. A resposta clínica depende da dose, do horário de administração, da função hepática, dos outros medicamentos usados, da idade, da gravidade da insônia e da sensibilidade individual.

Também é importante evitar uma comparação inadequada entre as doses. 5 mg de lemborexanto não equivalem a 25 mg de daridorexanto, pois são moléculas diferentes e as concentrações em miligramas não medem diretamente a mesma potência farmacológica.

Este texto é informativo e não substitui consulta médica, avaliação do diagnóstico ou leitura da bula vigente no país. Não se deve iniciar, trocar, combinar ou interromper esses medicamentos sem orientação profissional.

Comparação geral

Característica Dayvigo Quviviq
Princípio ativo Lemborexanto Daridorexanto
Classe Antagonista duplo dos receptores de orexina, ou DORA Antagonista duplo dos receptores de orexina, ou DORA
Indicação regulatória central Insônia com dificuldade para iniciar e/ou manter o sono Insônia com dificuldade para iniciar e/ou manter o sono; na União Europeia, os sintomas devem durar pelo menos 3 meses e causar impacto considerável durante o dia
Apresentações usuais nas bulas consultadas 5 mg e 10 mg 25 mg e 50 mg
Dose inicial ou usual de referência 5 mg uma vez por noite; pode ser aumentada para 10 mg conforme resposta e tolerabilidade 25 mg a 50 mg uma vez por noite na bula dos Estados Unidos; na bula europeia, 50 mg é a dose recomendada para adultos e 25 mg pode ser escolhido conforme julgamento clínico
Meia-vida aproximada 17 horas para 5 mg e 19 horas para 10 mg Cerca de 8 horas
Metabolismo predominante Principalmente CYP3A4, com participação menor do CYP3A5 Principalmente CYP3A4
Efeito residual matinal Pode ser mais provável, sobretudo com 10 mg, pouco tempo de sono disponível ou associação com depressores do sistema nervoso central Pode haver sonolência e prejuízo matinal, embora a meia-vida mais curta tenda a reduzir a exposição residual em comparação farmacocinética simples
Ajuste na insuficiência hepática moderada Dose inicial e máxima de 5 mg Dose máxima recomendada de 25 mg
Insuficiência hepática grave Não recomendado Não recomendado
Situação regulatória no Brasil A Anvisa concedeu novo registro em 2025; a própria agência informou que a comercialização dependia da aprovação de preço pela CMED e da decisão da empresa Nas fontes oficiais brasileiras consultadas, não foi localizada uma página equivalente de registro do Quviviq; a disponibilidade pode depender de registro, importação e oferta legal atual

As doses e regras acima são apresentadas para comparação. Elas não constituem prescrição e podem variar conforme a jurisdição e a bula vigente.

Como funciona a classe dos antagonistas de orexina

A orexina, também chamada de hipocretina, é um sistema de sinalização do cérebro envolvido na manutenção da vigília. Os neurônios que produzem orexina ajudam a estabilizar o estado acordado e a impedir transições inadequadas para o sono. Em algumas pessoas com insônia, a atividade dos circuitos de alerta pode permanecer elevada no período em que o organismo deveria iniciar ou manter o sono.

Lemborexanto e daridorexanto bloqueiam os receptores OX1R e OX2R, que recebem os sinais das orexinas A e B. A finalidade farmacológica é reduzir o impulso de vigília, facilitando a transição para o sono e diminuindo a ativação que favorece os despertares. As bulas descrevem esse mecanismo como antagonismo dos receptores de orexina e não como aumento direto da atividade do ácido gama-aminobutírico, o GABA.

Essa diferença separa os DORAs dos benzodiazepínicos e de medicamentos chamados, em linguagem comum, de “Z-drugs”, que atuam no complexo receptor GABA-A. Entretanto, dizer que Dayvigo e Quviviq não são GABAérgicos não significa dizer que sejam isentos de sedação, prejuízo psicomotor ou interação com álcool e outros depressores do sistema nervoso central. Os dois podem reduzir a vigília e causar sonolência no dia seguinte, inclusive quando usados de acordo com a receita.

A ação sobre a orexina também ajuda a explicar a ocorrência de eventos como paralisia do sono, alucinações nas transições entre sono e vigília e sintomas semelhantes à cataplexia em uma parcela de pacientes. Esses eventos são incomuns, mas estão descritos nas informações oficiais dos dois medicamentos.

A principal diferença: duração no organismo

A meia-vida é o tempo aproximado necessário para que a concentração de um medicamento no organismo seja reduzida pela metade. Ela não é idêntica à duração percebida do efeito, mas fornece uma indicação importante sobre a possibilidade de exposição residual. A duração clínica também depende da dose, da velocidade de absorção, da alimentação, do metabolismo, da idade, da função do fígado, das interações e da sensibilidade de cada pessoa.

O lemborexanto apresenta meia-vida efetiva de aproximadamente 17 horas na dose de 5 mg e 19 horas na dose de 10 mg. Portanto, a quantidade de medicamento presente no organismo na manhã seguinte e ao longo do dia pode permanecer relevante, principalmente com a dose mais alta. O rótulo do Dayvigo adverte que pode haver comprometimento da atenção, da coordenação motora e da capacidade de dirigir na manhã seguinte, com preocupação especial para a dose de 10 mg.

O daridorexanto apresenta meia-vida terminal de cerca de 8 horas. Em termos farmacocinéticos, isso favorece uma eliminação mais rápida e pode ser uma característica atraente para pessoas que precisam reduzir a possibilidade de sedação residual. Porém, a meia-vida menor não elimina o risco de sonolência matinal. A bula do Quviviq também alerta para prejuízo da vigília e da coordenação, especialmente quando se usa a dose de 50 mg, quando não restam pelo menos sete horas de sono ou quando há associação com álcool e outros depressores do sistema nervoso central.

Por isso, é inadequado transformar a diferença de meia-vida em uma promessa de que o Quviviq sempre permitirá acordar bem ou de que o Dayvigo inevitavelmente causará uma “ressaca”. A farmacocinética modifica a probabilidade e a intensidade do efeito residual, mas a experiência individual precisa ser observada com cautela, sobretudo no início do tratamento e após aumentos de dose.

Início e manutenção do sono

A insônia pode aparecer predominantemente como dificuldade para adormecer, como dificuldade para permanecer dormindo ou como uma combinação dos dois problemas. A indicação regulatória de ambos os medicamentos abrange o início e a manutenção do sono. Portanto, não é correto dizer que o Quviviq serve apenas para quem demora a dormir ou que o Dayvigo é destinado apenas a quem acorda durante a noite.

A maior duração do lemborexanto pode ser clinicamente útil para algumas pessoas que apresentam muitos despertares ou dificuldade para voltar a dormir. Isso é uma hipótese farmacológica plausível, não uma garantia individual. A duração prolongada também pode aumentar a chance de exposição durante a manhã, especialmente se a pessoa precisa levantar cedo, dormiu menos de sete horas ou usa a dose de 10 mg.

O daridorexanto também demonstrou efeito sobre parâmetros relacionados à manutenção do sono, além de parâmetros relacionados ao início do sono. Sua eliminação mais rápida pode ser considerada quando a prioridade clínica é limitar o efeito residual, mas a dose de 50 mg ainda pode produzir prejuízo na manhã seguinte. O benefício de uma menor duração no organismo pode ser perdido se a dose for aumentada sem necessidade, se o medicamento for tomado tarde ou se houver interação que eleve sua concentração.

Uma revisão sistemática e meta-análise em rede publicada em 2025 comparou indiretamente estudos de daridorexanto, lemborexanto, suvorexanto e placebo. Os tratamentos ativos foram superiores ao placebo em vários desfechos, mas a análise não substitui um ensaio clínico randomizado que compare diretamente Dayvigo e Quviviq na mesma população, com as mesmas doses e os mesmos critérios. Assim, os resultados podem ajudar a contextualizar a classe, mas não permitem escolher automaticamente um medicamento para uma pessoa específica.[7]

Doses, horário e alimentação

O Dayvigo é geralmente iniciado com 5 mg uma vez por noite, imediatamente antes de deitar, quando restam pelo menos sete horas até o horário planejado de despertar. A dose pode ser aumentada para 10 mg conforme resposta clínica e tolerabilidade. O máximo recomendado na bula norte-americana é de 10 mg uma vez ao dia.

O Quviviq é usado uma vez por noite, normalmente dentro de 30 minutos antes de deitar e com pelo menos sete horas disponíveis para dormir. A bula norte-americana trabalha com a faixa de 25 mg a 50 mg. A informação europeia recomenda 50 mg para adultos, permitindo 25 mg conforme julgamento clínico. Essas diferenças entre documentos regulatórios mostram por que a bula local e a avaliação do médico devem prevalecer.

Os dois medicamentos podem ter o início do efeito retardado quando tomados com ou logo após uma refeição volumosa, especialmente uma refeição rica em gordura. Esse aspecto é relevante para quem toma o comprimido depois de jantar tarde e conclui, de forma precipitada, que a dose foi insuficiente. A resposta não deve ser corrigida com uma dose adicional na mesma noite.

Se a dose for esquecida, a conduta deve seguir a bula e a orientação médica. Em particular, não se deve tomar uma dose no meio da noite quando não houver tempo suficiente para uma noite completa de sono. Também não se deve duplicar a dose na noite seguinte.

Metabolismo, fígado e interações

Os dois fármacos são metabolizados principalmente pela enzima CYP3A4. Essa informação é clinicamente importante porque vários medicamentos, suplementos e alimentos podem inibir ou induzir essa enzima. Um inibidor pode aumentar a concentração do hipnótico e intensificar a sonolência ou outros efeitos adversos. Um indutor pode reduzir a concentração e diminuir a eficácia.

No caso do Dayvigo, a bula recomenda evitar a associação com inibidores fortes ou moderados de CYP3A. Quando há um inibidor fraco, a dose máxima recomendada é de 5 mg. Também se recomenda evitar indutores fortes ou moderados. A bula cita, entre exemplos de interação, claritromicina, itraconazol, fluconazol, verapamil, rifampicina, carbamazepina, erva-de-são-joão e alguns outros medicamentos. Essa lista é apenas ilustrativa e não substitui uma revisão completa da prescrição.

No caso do Quviviq, a bula norte-americana recomenda evitar inibidores fortes de CYP3A4 e limitar a dose a 25 mg quando há inibidores moderados. Indutores moderados ou fortes também devem ser evitados. A informação europeia contraindica a associação com inibidores fortes e recomenda evitar toranja ou suco de toranja à noite. Exemplos citados em documentos regulatórios incluem itraconazol, claritromicina, ritonavir, eritromicina, ciprofloxacino, ciclosporina e diltiazem, mas a relevância depende da dose, do horário, da formulação e de todos os medicamentos envolvidos.

A função hepática também influencia a escolha. Para o Dayvigo, a recomendação em insuficiência hepática moderada é iniciar e permanecer no máximo em 5 mg; o uso não é recomendado na insuficiência grave. Para o Quviviq, a dose máxima recomendada em insuficiência hepática moderada é de 25 mg, e o uso não é recomendado em insuficiência grave. A avaliação deve considerar exames, diagnóstico, consumo de álcool, histórico de hepatite, esteatose avançada, cirrose e outros medicamentos metabolizados pelo fígado.

Nas informações consultadas, não é necessário ajuste de dose por insuficiência renal para nenhum dos dois medicamentos em várias situações. Isso não significa que doença renal, idade avançada ou múltiplas doenças possam ser ignoradas. A decisão continua dependendo do quadro clínico completo.

Álcool, sedativos e direção

A combinação com álcool deve ser evitada. O álcool pode somar seus efeitos sobre equilíbrio, memória, atenção e coordenação motora. O risco não se limita ao momento de adormecer: pode aumentar a possibilidade de quedas, acidentes, confusão e prejuízo da capacidade de dirigir na manhã seguinte.

Também é necessário informar ao médico o uso de benzodiazepínicos, opioides, antidepressivos sedativos, antialérgicos sedativos, antipsicóticos, outros hipnóticos, relaxantes musculares e produtos à base de cannabis. O problema não é apenas uma interação metabólica. Pode ocorrer efeito farmacodinâmico aditivo, no qual dois ou mais agentes reduzem a vigília ao mesmo tempo.

As bulas não recomendam associar Dayvigo ou Quviviq a outros medicamentos para insônia sem avaliação profissional. O fato de os DORAs não atuarem primariamente no GABA não autoriza sua combinação informal com benzodiazepínicos ou outros sedativos.

A pessoa deve dirigir apenas quando estiver plenamente alerta. O início do tratamento, a mudança de dose, a ingestão de álcool, uma noite curta e o uso de medicamentos concomitantes são situações de maior risco. Se houver sonolência, tontura, lentidão, sensação de embotamento, dificuldade de concentração ou instabilidade ao caminhar, atividades que exigem atenção devem ser adiadas.

Efeitos adversos e sinais de alerta

A reação adversa mais destacada na bula do Dayvigo é a sonolência. A Anvisa também descreve sonolência e fadiga entre as reações observadas no programa clínico. No Quviviq, as reações mais comuns nas informações norte-americanas são cefaleia e sonolência ou fadiga. Tontura e queda podem ocorrer, principalmente quando a pessoa é idosa, usa outros depressores do sistema nervoso central ou levanta durante a noite.

Os dois medicamentos podem causar fenômenos relacionados à transição entre sono e vigília, como paralisia do sono e alucinações hipnagógicas ou hipnopômpicas. Também foram descritos sintomas semelhantes à cataplexia, como fraqueza transitória nas pernas. Esses sintomas não devem ser simplesmente interpretados como parte normal da insônia, especialmente se forem intensos, recorrentes ou surgirem durante o dia.

Comportamentos complexos durante o sono são um alerta importante. Eles incluem sonambulismo, dirigir sem estar plenamente acordado, preparar ou comer alimentos, fazer telefonemas, manter relações sexuais ou realizar outras atividades sem memória posterior. Esses eventos podem ocorrer desde a primeira utilização e podem acontecer com ou sem álcool. Se ocorrer um comportamento desse tipo, a recomendação das bulas é interromper o medicamento e procurar orientação médica imediatamente.

As informações oficiais também alertam para possível piora da depressão ou surgimento de pensamentos suicidas. Pessoas com depressão, transtorno bipolar, histórico de ideação suicida ou outras condições psiquiátricas precisam informar isso antes do tratamento e devem receber acompanhamento adequado. Pensamentos de autoagressão exigem ajuda urgente, independentemente de o medicamento ter sido ou não o fator desencadeante.

Pessoas com apneia do sono, doença pulmonar obstrutiva crônica ou outra limitação respiratória também devem ser avaliadas. Os estudos disponíveis não eliminam a necessidade de cautela em todos os graus de doença respiratória, especialmente porque a sedação pode dificultar a percepção ou o manejo de eventos durante o sono.

Dependência, tolerância e controle regulatório

A diferença de mecanismo em relação aos benzodiazepínicos é relevante, mas não permite afirmar que Dayvigo e Quviviq sejam livres de risco de abuso ou dependência. Nos Estados Unidos, ambos são classificados como substâncias controladas. As informações regulatórias descrevem estudos sem sinais de dependência física ou sintomas de abstinência relevantes após a interrupção em condições de pesquisa, mas também relatam estudos de potencial de abuso e recomendam acompanhamento cuidadoso de pessoas com histórico de uso problemático de álcool ou outras drogas.

Essa distinção é importante. Ausência de evidência de abstinência física em ensaios clínicos não equivale a risco zero em todos os usuários. Além disso, estudos controlados não reproduzem todas as situações de uso prolongado, associação com outros sedativos ou automedicação. A dose não deve ser aumentada para compensar uma noite ruim, e o medicamento não deve ser compartilhado com outra pessoa.

No Brasil, a Anvisa publicou o novo registro do Dayvigo em 2025 e informou que o produto é vendido com retenção da receita, na Lista B1 da Portaria 344/1998. A mesma página esclarece que o registro não significa, por si só, incorporação ao SUS nem disponibilidade imediata em todas as farmácias.[1] Para o Quviviq, a disponibilidade brasileira deve ser verificada em fontes regulatórias e canais legais de fornecimento, porque importação individual, distribuição comercial e registro sanitário são situações diferentes.

Registro e acesso no Brasil

A Anvisa publicou a página de novo registro do Dayvigo em abril de 2025, com atualização em julho do mesmo ano. O texto oficial confirma a indicação para adultos com dificuldade para adormecer ou manter o sono e informa que a comercialização dependia da aprovação do preço máximo pela CMED e da decisão da empresa detentora do registro. Portanto, é preciso diferenciar três conceitos: registro sanitário, autorização comercial efetiva e disponibilidade no mercado e fornecimento pelo SUS.

A disponibilidade pode mudar com o tempo. Uma busca pontual não deve ser usada para afirmar que um produto nunca foi registrado ou que não pode ser obtido legalmente. No caso do Quviviq, as fontes oficiais internacionais consultadas confirmam a autorização nos Estados Unidos e na União Europeia, mas não foi localizada, nesta pesquisa, uma página equivalente da Anvisa. Quem considerar importação precisa verificar as regras vigentes, a necessidade de prescrição e os procedimentos oficiais aplicáveis, sem adquirir produtos de origem incerta.

Qual pode ser mais adequado em diferentes situações?

Quando a principal preocupação é a dificuldade para manter o sono, o Dayvigo pode parecer atraente por sua duração mais longa. A manutenção prolongada da ocupação dos receptores pode ser útil para algumas pessoas com despertares frequentes. Em contrapartida, a mesma característica pode aumentar a chance de sonolência residual, sobretudo com 10 mg, em pessoas sensíveis, em idosos ou quando há pouco tempo disponível para dormir.

Quando a principal preocupação é levantar com o mínimo possível de efeito residual, o Quviviq pode ser considerado por sua meia-vida mais curta. Essa característica não garante uma manhã sem sonolência, especialmente com 50 mg, uso tardio, noite curta, álcool ou interação medicamentosa. A avaliação precisa incluir a resposta real da pessoa, e não somente a diferença teórica entre oito e aproximadamente 17 a 19 horas.

Quando existe doença hepática ou uso de medicamentos que interferem na CYP3A4, a escolha pode mudar. O limite recomendado para insuficiência hepática moderada é diferente entre os dois fármacos, assim como as regras de dose quando há inibidores moderados da CYP3A4. Esse é um dos motivos pelos quais a comparação não deve ser reduzida a “um dura mais e o outro dura menos”.

Quando há narcolepsia, nenhum dos dois deve ser utilizado, pois a narcolepsia é uma contraindicação descrita nas informações regulatórias. Quando há comportamentos complexos durante o sono, sintomas de cataplexia, alucinações, piora importante do humor, consumo problemático de álcool ou combinação com múltiplos sedativos, a prioridade é reavaliar a segurança e o diagnóstico, não simplesmente trocar de marca.

O lugar do tratamento não medicamentoso

A insônia persistente deve ser investigada. Ela pode estar relacionada a ansiedade, depressão, dor, refluxo, menopausa, uso de estimulantes, apneia obstrutiva do sono, síndrome das pernas inquietas, horários irregulares, trabalho em turnos, uso excessivo de telas ou outras condições clínicas. Se o problema permanece apesar do tratamento, a própria bula do Dayvigo recomenda reavaliar a presença de comorbidades após alguns dias de uso; o rótulo do Quviviq também orienta reavaliar diagnósticos associados quando a insônia persiste.

A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida como TCC-I, é recomendada como tratamento de primeira linha para a insônia crônica em adultos pela diretriz europeia de 2023. A TCC-I pode envolver controle de estímulos, restrição do tempo na cama, regularização do horário de despertar, reestruturação de pensamentos relacionados ao sono e estratégias para reduzir a hiperativação. Um medicamento pode ser considerado quando a TCC-I não é suficiente, não está disponível de imediato, é contraindicada em uma situação específica ou precisa ser combinada com uma abordagem comportamental conforme avaliação clínica.[8]

Isso não significa que os DORAs sejam inadequados. Significa que a escolha de um hipnótico deve fazer parte de um plano mais amplo. O objetivo não é apenas induzir o sono em uma noite, mas reduzir o sofrimento, melhorar o funcionamento diurno, tratar fatores associados e reavaliar periodicamente a necessidade de manutenção.

Conclusão

Dayvigo e Quviviq compartilham a mesma estratégia terapêutica geral: reduzir os sinais de vigília mediados pela orexina, sem ter como mecanismo primário a potencialização do GABA. Ambos são indicados para dificuldades de iniciar e/ou manter o sono, ambos podem causar sonolência e ambos exigem atenção a álcool, sedativos, doença hepática, interações pela CYP3A4 e comportamentos complexos durante o sono.

A diferença prática mais importante é a duração farmacocinética. O lemborexanto, presente no Dayvigo, tem meia-vida efetiva mais longa e pode oferecer uma cobertura mais prolongada durante a noite, com maior possibilidade de efeito residual em algumas pessoas. O daridorexanto, presente no Quviviq, tem meia-vida mais curta e pode ser uma alternativa quando se deseja limitar a exposição residual, embora não elimine a possibilidade de sonolência matinal.

A frase mais precisa não é “Quviviq é melhor para acordar bem” nem “Dayvigo é melhor para quem desperta”. A conclusão mais segura é que o Dayvigo tende a permanecer mais tempo no organismo, enquanto o Quviviq tende a ser eliminado mais rapidamente; essa diferença pode orientar a escolha, mas não substitui a avaliação individual. Dose, horário, tempo disponível para dormir, função hepática, interações, comorbidades, idade, resposta clínica e acesso legal ao produto devem ser considerados em conjunto.

Referências

Anvisa — Dayvigo (lemborexante): novo registro

DailyMed — DAYVIGO, lemborexant tablet, film coated

DAYVIGO — Full Prescribing Information

FDA — QUVIVIQ (daridorexant) prescribing information

European Medicines Agency — Quviviq

European Medicines Agency — Quviviq product information

Kishi et al. — Comparative efficacy and safety of daridorexant, lemborexant, and suvorexant for insomnia: a systematic review and network meta-analysis

Riemann et al. — The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023

Álamo et al. — Orexinergic receptor antagonists as a new therapeutic target to overcome limitations of current pharmacological treatment of insomnia disorder

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