CHENODIOL
O chenodiol, também conhecido como ácido quenodesoxicólico (CDCA), é um ácido biliar primário naturalmente sintetizado no fígado a partir do colesterol. Como medicamento, ele possui aplicações terapêuticas específicas, principalmente na dissolução de cálculos biliares de colesterol e no tratamento de uma rara doença metabólica. Este artigo descreve de forma neutra e informativa o seu mecanismo de ação, indicações clínicas, eficácia e perfil de segurança, com base em fontes científicas e regulatórias.
O que é Chenodiol?
O chenodiol é um dos dois principais ácidos biliares primários produzidos pelo corpo humano, juntamente com o ácido cólico. Ele desempenha um papel fundamental na digestão e absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis. Como fármaco, o chenodiol é utilizado para alterar a composição da bile e para repor a deficiência em certas doenças genéticas [1][2].
Mecanismo de Ação
O mecanismo de ação do chenodiol varia de acordo com a sua aplicação terapêutica:
- Dissolução de Cálculos Biliares: O chenodiol atua suprimindo a síntese hepática de colesterol e de ácido cólico. Isso leva a uma diminuição da saturação de colesterol na bile. Uma bile menos saturada em colesterol tem a capacidade de dissolver gradualmente os cálculos biliares que são compostos predominantemente por colesterol [1][3].
- Tratamento da Xantomatose Cerebrotendinosa (CTX): A CTX é uma doença genética rara causada pela deficiência da enzima estero-27-hidroxilase, o que impede a síntese normal de ácidos biliares. Isso leva ao acúmulo de substâncias anormais, como o colestanol, em vários tecidos, incluindo o cérebro e os tendões. O tratamento com chenodiol atua como uma terapia de reposição, restaurando os níveis normais de ácidos biliares, o que, por sua vez, normaliza a síntese de colesterol e reduz a produção e o acúmulo de colestanol [4][5].
Indicações Terapêuticas
O chenodiol possui duas indicações principais aprovadas:
- Dissolução de Cálculos Biliares de Colesterol: Indicado para pacientes com cálculos biliares radiotransparentes (não visíveis em raios-X) em vesículas biliares funcionantes, especialmente em casos onde a cirurgia (colecistectomia) apresenta um risco aumentado para o paciente [3]. Não é eficaz para cálculos calcificados ou de pigmento biliar.
- Xantomatose Cerebrotendinosa (CTX): É considerado o tratamento padrão para esta doença rara, atuando na correção do defeito metabólico subjacente [4][5].
Farmacocinética
A seguir, os principais parâmetros farmacocinéticos do chenodiol:
ParâmetroDescriçãoAdministraçãoOral, geralmente em doses divididas [1].AbsorçãoÉ bem absorvido no intestino delgado [2].MetabolismoApós a absorção, é conjugado no fígado com glicina ou taurina e secretado na bile. Sofre circulação entero-hepática [2].ExcreçãoA maior parte é reabsorvida no íleo; a pequena fração não absorvida é excretada nas fezes após conversão bacteriana [2].
Segurança e Efeitos Adversos
O tratamento com chenodiol requer monitoramento e deve ser realizado sob supervisão médica.
AVISO IMPORTANTE: O chenodiol pode causar hepatotoxicidade. É essencial monitorar as enzimas hepáticas (transaminases) antes e durante o tratamento. O medicamento não deve ser usado em pacientes com doença hepática crônica significativa ou doenças biliares que impeçam a circulação da bile [1][5].
Os efeitos adversos mais comuns incluem:
- Diarreia: É o efeito colateral mais frequente, geralmente dose-dependente e que pode ser controlado com a redução da dose.
- Aumento das Transaminases Séricas: Elevações das enzimas hepáticas (ALT, AST) são comuns, mas geralmente são leves e transitórias. No entanto, lesões hepáticas mais graves, embora raras, podem ocorrer [1].
- Interações Medicamentosas: Pode interagir com sequestrantes de ácidos biliares (como colestiramina) e antiácidos à base de alumínio, que podem reduzir sua absorção [5].
Conclusão
O chenodiol é um ácido biliar terapêutico com um mecanismo de ação bem definido para a dissolução de cálculos biliares de colesterol e para o tratamento da xantomatose cerebrotendinosa. Embora sua utilização para cálculos biliares tenha diminuído com o advento de outras terapias como o ursodiol e a cirurgia laparoscópica, ele permanece como um tratamento fundamental e de primeira linha para a rara e grave doença metabólica CTX. O seu uso exige uma avaliação cuidadosa do paciente e um monitoramento rigoroso, especialmente da função hepática.
Referências
- LiverTox. (2016). Chenodiol (Chenodeoxycholic Acid). National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK547907/
- PubChem. (n.d.). Chenodeoxycholic Acid. National Center for Biotechnology Information. Disponível em: https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/Chenodeoxycholic-Acid
- DrugBank. (2025). Chenodeoxycholic acid. Disponível em: https://go.drugbank.com/drugs/DB06777
- Kisanuki, Y. Y., et al. (2025). Efficacy, safety, and tolerability of chenodeoxycholic acid (CDCA) in adult patients with cerebrotendinous xanthomatosis (RESTORE): a randomized withdrawal study. The Lancet. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1098360025000966
- FDA. (2025). CTEXLI (chenodiol) tablets, for oral use - Prescribing Information. Disponível em: https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2025/219488s000lbl.pdf