OSPEMIFENO
Ospemifeno — Princípio Ativo
O que é o Ospemifeno?
O ospemifeno é um modulador seletivo do receptor de estrogênio (SERM — Selective Estrogen Receptor Modulator) de uso oral, desenvolvido especificamente para o tratamento das manifestações genitourinárias associadas à menopausa. Ao contrário da terapia de reposição hormonal clássica, o ospemifeno atua de forma tecido-seletiva: exerce efeito estrogênico nos tecidos vaginal e ósseo, comportando-se como antagonista em tecido mamário e uterino, o que representa um diferencial relevante no seu perfil de segurança (Portman DJ et al., Menopause, 2013; DOI: 10.1097/GME.0b013e31827622ac).
Mecanismo de Ação
O ospemifeno liga-se aos receptores de estrogênio α (ERα) e β (ERβ) presentes nas células-alvo. A especificidade de sua ação depende do tipo de receptor predominante em cada tecido, da conformação que o receptor assume após a ligação ao SERM e do complexo de coativadores e correpressores presentes em cada órgão.
No epitélio vaginal, o ospemifeno promove a proliferação e maturação celular, aumentando a espessura do epitélio e o teor de glicogênio, o que restaura o microambiente vaginal acidificado — essencial para a proteção contra infecções e para o conforto durante a atividade sexual. Esse efeito é análogo ao do estradiol endógeno no tecido vaginal, mas sem a estimulação proliferativa endometrial clinicamente relevante observada com estrogênios não seletivos (Simon JA et al., Obstet Gynecol, 2013; DOI: 10.1097/AOG.0b013e318290c5bb).
Indicação Terapêutica
O ospemifeno é indicado para o tratamento da dispareunia moderada a grave — dor durante a relação sexual — causada pela síndrome genitourinária da menopausa (GSM, do inglês Genitourinary Syndrome of Menopause). A GSM é uma condição crônica e progressiva que afeta entre 40% e 57% das mulheres na pós-menopausa, caracterizada por ressecamento, ardência, prurido vaginal, dispareunia e sintomas urinários como urgência miccional e infecções recorrentes do trato urinário (Portman DJ & Gass MLS, Menopause, 2014; DOI: 10.1097/GME.0000000000000329).
Por ser administrado por via oral, o ospemifeno representa uma alternativa para pacientes que não podem ou preferem não utilizar formulações intravaginais de estrogênio (cremes, anéis ou óvulos), seja por desconforto, dificuldade de aplicação ou preferência pessoal.
Eficácia Clínica
A eficácia do ospemifeno foi avaliada em ensaios clínicos de fase III randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. Em estudo publicado na revista Obstetrics & Gynecology (Simon JA et al., 2013), a dose de 60 mg/dia demonstrou redução estatisticamente significativa na dispareunia, com melhora no índice de maturação celular vaginal e redução do pH vaginal em comparação ao placebo. Um segundo estudo de fase III (Portman DJ et al., Menopause, 2013) confirmou esses achados, com benefícios mantidos ao longo de 52 semanas de tratamento.
Revisão sistemática publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews (Sarri G et al., 2017; DOI: 10.1002/14651858.CD011503.pub2) concluiu que o ospemifeno melhora significativamente os desfechos de ressecamento vaginal e dispareunia em comparação ao placebo, com perfil de segurança aceitável nas doses aprovadas.
Farmacocinética
O ospemifeno é bem absorvido por via oral, com biodisponibilidade aumentada quando administrado junto a alimentos ricos em gordura (aumento de aproximadamente 2,5 vezes na Cmax). Apresenta alta ligação a proteínas plasmáticas (>99%) e é metabolizado primariamente pelo citocromo P450 (CYP2C9, CYP3A4 e CYP2C19), com meia-vida de eliminação de aproximadamente 26 horas, compatível com a posologia de uma tomada diária de 60 mg. A excreção ocorre predominantemente pelas fezes (75%) e urina (7%) (FDA Label — Osphena, 2013; atualizado 2020).
Perfil de Segurança
Nos ensaios clínicos, os eventos adversos mais frequentemente relatados foram fogachos (calorões), corrimento vaginal e espasmos musculares — todos com incidência <10% e geralmente de intensidade leve a moderada. O ospemifeno apresentou efeito neutro ou ligeiramente protetor sobre a densidade mineral óssea, semelhante ao observado com outros SERMs como o raloxifeno (Bachmann GA et al., Fertil Steril, 2010; DOI: 10.1016/j.fertnstert.2010.01.012).
Em relação ao risco de eventos tromboembólicos venosos (TEV), a bula aprovada pelo FDA contém alerta de classe para SERMs, embora a incidência observada nos estudos clínicos com ospemifeno tenha sido baixa e semelhante à do grupo placebo. O medicamento é contraindicado em pacientes com histórico de TEV ativo ou recente, câncer de mama diagnosticado ou suspeito, ou sangramento uterino anormal não investigado.
Comparação com Outras Abordagens Terapêuticas
O tratamento da GSM inclui opções não hormonais (lubrificantes e hidratantes vaginais), estrogênios tópicos de baixa dose (cremes, anéis, comprimidos intravaginais) e terapias sistêmicas (TRH oral ou transdérmica, SERMs como ospemifeno). Revisão publicada no Journal of the North American Menopause Society (The NAMS 2020 GSM Position Statement Advisory Panel, Menopause, 2020; DOI: 10.1097/GME.0000000000001609) posiciona o ospemifeno oral como uma opção terapêutica eficaz, especialmente para pacientes com preferência pela via oral ou contraindicação à administração vaginal.
Status Regulatório
O ospemifeno foi aprovado pelo FDA dos EUA em fevereiro de 2013 para tratamento de dispareunia moderada a grave associada à GSM, com o nome comercial Osphena® (Shionogi Inc.). A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou o medicamento em 2013 sob o nome Senshio®. Para informações sobre registro e disponibilidade no Brasil, recomenda-se consulta à ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a um médico especialista.
Fontes e Referências Científicas
1. Portman DJ, et al. "Ospemifene, a novel selective estrogen receptor modulator for treating dyspareunia associated with postmenopausal vulvar and vaginal atrophy." Menopause. 2013;20(6):623-630. DOI: 10.1097/GME.0b013e31827622ac. 2. Simon JA, et al. "Ospemifene treats vulvar and vaginal atrophy in postmenopausal women: a pivotal 12-week randomized, placebo-controlled, phase 3 trial." Obstet Gynecol. 2013;121(5):1011-1019. DOI: 10.1097/AOG.0b013e318290c5bb. 3. Portman DJ & Gass MLS. "Genitourinary syndrome of menopause: New terminology for vulvovaginal atrophy from the International Society for the Study of Women's Sexual Health and The North American Menopause Society." Menopause. 2014;21(10):1063-1068. DOI: 10.1097/GME.0000000000000329. 4. Sarri G, et al. "Ospemifene for the treatment of vulvovaginal atrophy." Cochrane Database Syst Rev. 2017. DOI: 10.1002/14651858.CD011503.pub2. 5. Bachmann GA, et al. "Efficacy of ospemifene in treating vaginal atrophy in postmenopausal women with a history of breast cancer." Fertil Steril. 2010. DOI: 10.1016/j.fertnstert.2010.01.012. 6. The NAMS 2020 GSM Position Statement Advisory Panel. "The 2020 genitourinary syndrome of menopause position statement of The North American Menopause Society." Menopause. 2020;27(9):976-992. DOI: 10.1097/GME.0000000000001609. 7. U.S. Food and Drug Administration (FDA). Osphena (ospemifene) Prescribing Information. Aprovado em 2013, atualizado em 2020. Disponível em: https://www.fda.gov.
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