MITOTANO
O que é Mitotano?
O mitotano, comercializado sob a marca Lysodren®, é um medicamento quimioterápico oral utilizado principalmente no tratamento do carcinoma adrenocortical (CAC), um tipo raro e agressivo de câncer que se forma nas camadas externas das glândulas adrenais. Derivado do inseticida DDT, o mitotano é classificado como um agente citotóxico adrenal, o que significa que ele destrói seletivamente as células do córtex adrenal, tanto as cancerosas quanto as saudáveis.
Devido à sua alta toxicidade e mecanismo de ação complexo, seu uso é restrito a ambientes hospitalares e acompanhado por especialistas.
Mecanismo de Ação
O mecanismo de ação exato do mitotano ainda não é completamente elucidado, mas sabe-se que ele atua de forma multifacetada, combinando efeitos citotóxicos diretos com a inibição da produção de hormônios esteroides.
1. Citotoxicidade Adrenocortical
O mitotano é metabolizado nas mitocôndrias das células do córtex adrenal, gerando intermediários reativos que se ligam a macromoléculas essenciais, levando à disfunção mitocondrial e, finalmente, à necrose e apoptose (morte celular programada) dessas células. Essa ação é seletiva para o córtex adrenal.
2. Inibição da Esteroidogênese
O fármaco inibe várias enzimas cruciais na via de produção de hormônios esteroides, como o cortisol. As principais enzimas afetadas são a colesterol desmolase (CYP11A1) e a 11β-hidroxilase (CYP11B1). Ao bloquear a produção de cortisol, o mitotano ajuda a controlar os sintomas da síndrome de Cushing, frequentemente associada ao carcinoma adrenocortical funcional.
3. Alteração do Metabolismo Periférico de Esteroides
Além de sua ação direta nas adrenais, o mitotano modifica o metabolismo periférico dos esteroides, aumentando a conversão de cortisol em seus metabólitos inativos, o que contribui para a redução dos níveis hormonais circulantes.
Segundo um estudo publicado no New England Journal of Medicine, o tratamento adjuvante com mitotano demonstrou prolongar a sobrevida livre de recorrência em pacientes com carcinoma adrenocortical radicalmente ressecado, reforçando seu papel central no manejo da doença.
Indicações Terapêuticas
O mitotano é o único medicamento aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) e outras agências regulatórias para o tratamento específico do carcinoma adrenocortical. Suas principais indicações são:
- Carcinoma Adrenocortical Inoperável: Para pacientes cujo tumor não pode ser removido cirurgicamente.
- Carcinoma Adrenocortical Metastático: Para tratar o câncer que se espalhou para outras partes do corpo.
- Carcinoma Adrenocortical Recorrente: Para casos em que o câncer retornou após o tratamento inicial.
- Tratamento Adjuvante: Utilizado após a remoção cirúrgica completa do tumor para reduzir o risco de recorrência da doença.
Além disso, é eficaz no controle dos sintomas hormonais (síndrome de Cushing) associados a tumores adrenocorticais funcionais.
Farmacocinética e Administração
ParâmetroDescriçãoAdministraçãoOral, geralmente em 2 a 3 doses diárias.AbsorçãoCerca de 40% da dose oral é absorvida. A absorção é aumentada com alimentos ricos em gordura.DistribuiçãoAltamente lipofílico, acumula-se principalmente no tecido adiposo, que atua como um reservatório.MetabolismoHepático, através do sistema citocromo P450.Meia-vidaExtremamente longa e variável, de 18 a 159 dias, devido ao armazenamento no tecido adiposo.EliminaçãoPrincipalmente através da bile e fezes.
O tratamento é iniciado com doses baixas, que são gradualmente aumentadas com base nos níveis plasmáticos do medicamento e na tolerância do paciente. O objetivo é manter os níveis terapêuticos entre 14 e 20 mg/L para maximizar a eficácia e minimizar a toxicidade.
Aviso Importante: Riscos e Monitoramento
O uso de mitotano está associado a riscos significativos e requer monitoramento rigoroso:
- Insuficiência Adrenal: Como o mitotano destrói as células adrenais, ele invariavelmente causa insuficiência adrenal, exigindo terapia de reposição com glicocorticoides (como hidrocortisona ou prednisona) e, por vezes, mineralocorticoides.
- Toxicidade Neurológica: Em níveis elevados, o mitotano pode causar toxicidade no sistema nervoso central, manifestando-se como letargia, sonolência, tontura e ataxia. O monitoramento dos níveis plasmáticos é crucial para evitar esses efeitos.
- Interações Medicamentosas: O mitotano é um potente indutor de enzimas hepáticas (CYP3A4), o que pode acelerar o metabolismo de muitos outros medicamentos (ex: varfarina, anticonvulsivantes), reduzindo sua eficácia.
Efeitos Adversos Comuns
Os efeitos colaterais são muito comuns e frequentemente limitam a dose. Os mais relatados incluem:
- Gastrointestinais: Náuseas, vômitos, diarreia e perda de apetite.
- Neurológicos: Tontura, vertigem, sonolência e confusão.
- Gerais: Fadiga extrema e erupções cutâneas.
- Hematológicos: Anemia, leucopenia e trombocitopenia.
- Hepáticos: Aumento das enzimas hepáticas.
Referências
FonteDescriçãoURL1Terzolo, M., Angeli, A., Fassnacht, M., et al. (2007). Adjuvant Mitotane Treatment for Adrenocortical Carcinoma. New England Journal of Medicine, 356(23), 2372-2380.https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa0633602Iacono, M. L., Puglisi, S., Perotti, P., et al. (2021). Molecular Mechanisms of Mitotane Action in Adrenocortical Cancer Based on In Vitro Studies. Cancers, 13(21), 5255.https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8582505/3DrugBank Online. (2024). Mitotane.https://go.drugbank.com/drugs/DB006484Cancer Research UK. (2023). Mitotane (Lysodren).https://www.cancerresearchuk.org/about-cancer/treatment/drugs/mitotane-lysodren